Congestionamento em avenida arborizada de Belém, com faixas tomadas por carros e utilitários esportivos parados

Especial · Mobilidade urbana

SUVs dominaram
as ruas de Belém?
Entenda o fenômeno

Creta, T-Cross, Compass e Tracker lideram a preferência dos motoristas, impulsionados pelas condições das vias, facilidade de financiamento e mudanças no comportamento do consumidor.

Reportagem de Mayra Monteiro

Belém · Pará · publicado em 07/08/2026 · tempo de leitura 9 min

Role para ler

Quem circula diariamente pelas ruas de Belém provavelmente já percebeu uma mudança no trânsito da capital. Os tradicionais carros populares dividem cada vez mais espaço com utilitários esportivos (SUVs), como Hyundai Creta, Volkswagen T-Cross, Jeep Compass, Chevrolet Tracker e outros modelos que parecem ter se tornado presença constante nas avenidas da cidade.

Mas essa mudança significa que o paraense está com maior poder de compra? Ou existem outros fatores que explicam a preferência por veículos maiores?

Um Hyundai Creta cinza trafega por via esburacada de Belém, seguido por motociclistas e outros carros
Fotografia · Emerson Coe / DOLA altura livre do solo é o argumento de venda mais forte dos SUVs em Belém: buracos e poças fazem parte do trajeto diário.

O paradoxo

Comprar um SUV porque a rua é ruim

Segundo Isaias Moraes, gerente da concessionária TOP Car, especializada em SUVs, a mudança é percebida diariamente nas vendas da loja. Atualmente, o Hyundai Creta é o modelo mais procurado. Muitos consumidores que antes dirigiam hatches ou sedãs agora optam por um utilitário.

Em Belém, onde enfrentamos ruas esburacadas e diversos problemas de infraestrutura, o SUV acaba facilitando a locomoção
Isaias MoraesGerente da concessionária TOP Car

Ele lembra que esse cenário era diferente há cerca de cinco anos. “Naquela época, era mais comum o cliente comprar um hatch ou um sedã, principalmente por serem veículos mais baratos e, muitas vezes, o primeiro carro da família.”

Embora o mercado de seminovos tenha apresentado certa estabilidade nos últimos meses, Isaias afirma que um novo movimento começa a ganhar força. “Estamos percebendo um crescimento na procura por veículos híbridos e elétricos. Com mais lançamentos chegando ao mercado, muitos consumidores acabam optando pelo carro novo, reduzindo um pouco a procura pelos seminovos.”

Quem trocou de carro

Conforto, crédito e condições das vias explicam alta na procura

Essa mudança também faz parte da rotina do comerciante Edmilson Teixeira, de 36 anos. Há pouco tempo, ele decidiu trocar o Chevrolet Onix, um carro de passeio, por um SUV. A decisão, segundo ele, foi motivada principalmente pela busca por mais conforto e segurança durante os deslocamentos diários.

O comerciante Edmilson Teixeira ao lado do seu SUV, em uma rua de Belém
Fotografia · ReproduçãoO comerciante Edmilson Teixeira, de 36 anos, decidiu trocar, há pouco tempo, seu Chevrolet Onix, um carro de passeio, por um SUV.

“Passo bastante tempo no trânsito de Belém e queria um carro que deixasse essa rotina mais confortável. Além disso, a posição de dirigir e a sensação de segurança pesaram bastante na minha escolha”, conta.

Para Edmilson, a decisão não foi baseada apenas na aparência ou no desejo de ter um carro maior. “Foi um conjunto de motivos. Conforto e segurança foram os principais, mas também considerei a tecnologia embarcada e o custo-benefício. Eu queria um carro moderno, econômico e que atendesse às minhas necessidades.”

As ruas de Belém, em muitos lugares, têm buracos e irregularidades. Ter um carro com maior altura em relação ao solo transmite mais tranquilidade para enfrentar essas situações, mesmo sabendo que ainda é preciso dirigir com cuidado.
Edmilson TeixeiraComerciante, 36 anos

Apesar do desejo de trocar de veículo, Edmilson afirma que o preço exigiu planejamento. Para viabilizar a compra, ele entregou o antigo veículo como parte do pagamento e financiou o restante do valor. “O valor sempre pesa. Pesquisei bastante, comparei as opções disponíveis e só fechei negócio quando encontrei uma forma de pagamento que cabia no meu orçamento.”

Na opinião dele, o crescimento dos SUVs também está ligado ao desejo de consumo de muitos brasileiros. “Hoje, além da praticidade, existe um sonho de realização pessoal. Muita gente enxerga o SUV como um objetivo de consumo.”

O tamanho do fenômeno

A frota cresceu. A rua, não.

0,0%

dos emplacamentos de carros novos são SUVs

Fenabrave / Senatran · dados de mercado

0,0×

crescimento da categoria de SUVs em cinco anos

Fenabrave / Detran-PA · frota em expansão

0,0 km

de faixa de rolamento a mais ocupados pela frota adicional de carros

Cálculo sobre o incremento de 37 mil automóveis na frota de Belém em 5 anos (Senatran), a 5,80 m por veículo em fila

0%

de queda nos passageiros do transporte coletivo no mesmo período

Anuário NTU / Semob-Belém · média de redução no transporte urbano

Duas curvas, sentidos opostos

SUVs nos emplacamentos × passageiros no ônibus

% dos emplacamentos que são SUVpassageiros do ônibus (índice, 2019 = 100)
2019202020212022202320242025

Fontes: Fenabrave (participação dos SUVs nos emplacamentos de automóveis de passeio, 2019–2025) e Anuário NTU / Semob-Belém (passageiros transportados no transporte coletivo urbano, índice com 2019 = 100). A queda para 52,3 em 2020 corresponde ao fundo da pandemia; desde 2024 o patamar se estabiliza cerca de 30% abaixo do nível de 2019.

Mercado

Tendência nacional

Para o jornalista e editor especializado em veículos Vitor Pinto, a preferência por SUVs não é uma característica exclusiva de Belém, mas uma tendência consolidada em todo o país. Segundo ele, esses veículos conquistaram o consumidor por reunirem características muito valorizadas atualmente.

Os SUVs e as picapes ganharam preferência pela versatilidade, pelo espaço interno, pela sensação de segurança e também pelo status que transmitem.
Vitor PintoJornalista e editor especializado em veículos

Nas cidades da Região Norte, essa escolha encontra ainda uma justificativa prática. “Belém possui buracos, alagamentos e vias irregulares. Os SUVs oferecem maior altura em relação ao solo e conseguem enfrentar essas condições com mais facilidade. Além disso, muitos modelos utilizam pneus mais adequados para diferentes tipos de terreno.”

Para Vitor, o aspecto emocional também influencia a decisão de compra. “Hoje o SUV se tornou um objeto de desejo. O consumidor busca conforto, segurança e tecnologia, além da imagem que esse tipo de veículo transmite.”

Apesar do domínio atual dos SUVs e das picapes, ele acredita que o mercado pode passar por novas transformações nos próximos anos. “A chegada dos carros elétricos abriu um novo nicho para veículos menores. O mercado automobilístico brasileiro é bastante dinâmico e novas tendências podem surgir.”

A conta do bolso

O paraense está mais rico?

Na avaliação do economista Lucas Conde, o crescimento da presença dos SUVs nas ruas não pode ser explicado apenas pelo aumento do poder de compra da população. Segundo ele, diversos fatores econômicos e mercadológicos contribuíram para esse movimento. “Hoje, cerca de 55% dos emplacamentos de veículos no Brasil pertencem à categoria dos SUVs, que também apresenta um dos maiores índices de fidelização do setor.”

O preço do carro popular gira em torno de R$ 80 mil, enquanto um SUV de entrada custa aproximadamente R$ 95 mil. Em um financiamento de 48, 60 ou até 72 parcelas, essa diferença acaba sendo diluída
Lucas CondeEconomista
Vídeo · Emerson Coe / DOLO economista Lucas Conde explica por que o financiamento longo e a estratégia das montadoras tornaram o SUV o carro possível para o consumidor paraense.

Entre os motivos estão as condições das vias, a estratégia adotada pelas montadoras e uma redução significativa no custo de manutenção desses veículos quando comparado ao passado. Lucas destaca ainda que fatores econômicos ajudam a impulsionar o setor: “A renda média do paraense atingiu um recorde de R$ 2.347, e a expectativa de redução gradual da taxa Selic também favorece o acesso ao crédito.”

Mesmo assim, ele ressalta que o crescimento da renda é apenas parte da explicação. “O consumidor brasileiro passou a valorizar conforto, robustez, tecnologia e status. Hoje, cerca de 40% das pessoas que pretendem comprar o primeiro carro já desejam um SUV.”

Fila de SUVs ocupa a faixa junto à Estação Bosque do BRT em Belém, enquanto um ciclista pedala espremido no canteiro e um ônibus espera atrás
Fotografia · Emerson Coe / DOLJunto à Estação Bosque, os utilitários ocupam a via enquanto o ciclista divide o que sobra do meio-fio.

O outro lado da janela

Quem está fora do carro

O ganho de conforto de quem trocou o hatch pelo utilitário tem contrapartida do lado de fora: veículos maiores ocupam mais espaço de via, mais vaga e mais calçada, em uma cidade que não ganhou rua nova no mesmo ritmo em que ganhou carro novo.

O mesmo pedaço de rua

Quantas pessoas cabem em 100 m² de via

  • SUV médio15
  • Hatch popular19
  • Bicicleta62
  • Ônibus121

Metodologia do cálculo: Considerou-se a área média do veículo com folga de manobra (SUV médio: 8,0 m²; hatch popular: 6,3 m²; bicicleta: 1,6 m²; ônibus: 33,0 m²). Taxa de ocupação média de 1,2 pessoa por automóvel (IPEA/ANTP), 1 por bicicleta e 40 passageiros por ônibus no pico de operação (Semob/NTU), podendo ultrapassar 180 pessoas em pico de alta demanda.

Passageiros esperam em pé na calçada de pedra portuguesa ao lado de um ônibus urbano parado em avenida de Belém
Fotografia · Emerson Coe / DOLEnquanto a frota individual cresceu, o sistema de ônibus perdeu passageiros. As duas curvas se cruzam no mesmo período.

O que vem a seguir

Mudança que veio para ficar?

A combinação entre melhores condições de financiamento, evolução dos modelos, maior oferta pelas montadoras, mudanças no comportamento do consumidor e características das ruas de Belém ajuda a explicar por que os SUVs ganharam tanto espaço nos últimos anos.

Embora o mercado continue em constante transformação, especialmente com o avanço dos veículos híbridos e elétricos, especialistas concordam que os utilitários esportivos devem continuar entre os modelos preferidos dos brasileiros nos próximos anos, consolidando uma mudança que vai muito além da aparência das ruas da capital paraense.

O que dá para fazer

Quatro cidades já enfrentaram esta conta

Paris

2024

Após consulta pública em fevereiro, o estacionamento rotativo para veículos a combustão acima de 1,6 t subiu de € 6 para € 18 por hora no centro (1º ao 11º arrondissement).

Exigiria zona azul com tabela por peso — Belém já tem estacionamento rotativo.

Tóquio

desde 1962

A Proof of Parking Law proíbe emplacar automóvel sem comprovar vaga privada a até 2 km da residência; não há pernoite regulamentado na via pública.

Competência federal, mas serve de referência no debate sobre calçada ocupada.

Fortaleza

2015–2023

Limite reduzido de 60 para 50 km/h em 190 km de vias arteriais, com calçadas, travessias elevadas e ciclovias: as mortes no trânsito caíram 58,4% (de 377 para 157 por ano) e a acidentalidade grave recuou até 68% nas vias readequadas.

Medida municipal, de custo baixo e resultado medido — a mais replicável.

Curitiba

referência histórica

Os trinários de mobilidade somam 79,6 km de canaletas exclusivas, levam 65% dos usuários do sistema público e reduzem em 21% o tempo médio de viagem ante a média das capitais.

Dialoga diretamente com o legado viário da COP30 em Belém.

A rua explica o carro. E o carro, agora, explica a rua.

Enquanto buracos, alagamentos e vias irregulares continuarem fazendo parte da paisagem de Belém, o utilitário esportivo seguirá sendo, para muitos motoristas, a resposta mais imediata a um problema que não é deles. A pergunta que fica é quanto tempo a cidade ainda vai comprar veículos maiores em vez de consertar o chão por onde eles passam.

Metodologia e fontes

Período analisado
2019 a 2025, recorte do município de Belém.
Bases utilizadas
Detran-PA (frota e emplacamentos), Semob (passageiros e frota operante), Sesma e DataSUS (atropelamentos), Seurb (investimento viário), Sefa-PA (IPVA), Fenabrave (série nacional). Registrar a data de extração de cada base.
Pedidos de acesso à informação
Listar número de protocolo, data de envio e data de resposta de cada pedido.
Limitações
Declarar duplicidades encontradas nas planilhas, campos ausentes e qualquer estimativa feita pela reportagem, com o critério adotado.